Publicado em: 25/04/2022 08:51

Diante de dificuldades em seu relacionamento amoroso, uma administradora, empresária e moradora de Ipanema, na Zona Sul do Rio, de 28 anos, procurou um site que oferecia “trabalhos espirituais”. Pela página, Samantha Lhuba Vuletic Gaichi, que se identifica como Mãe Sofia, e Marcelo Vacite, que se apresenta como Pai Luiz, avisaram que havia sido feito um “trabalho” contra a moça, sendo necessária então uma “limpeza espiritual”, serviço oferecido pela dupla por R$ 14 mil. Embora surpresa com o valor, ela, preocupada, decidiu transferir o dinheiro para eles.

A partir de então, Mãe Sofia e Pai Luiz passaram a exigir novos depósitos para que o “trabalho” não voltasse e a “limpeza” perdurasse. Por vezes, as cobranças eram tão incisivas que a jovem, sem condições de arcar com as transações à vista, comprava, no cartão de crédito, celulares, roupas e artigos de luxo que eram entregues na casa deles, em um condomínio de alto padrão em Barueri, na região metropolitana de São Paulo. O prejuízo total foi de exatos R$ 327.805,83.

De acordo com investigações das polícias civis de São Paulo e do Rio, Samantha e Marcelo fazem parte de uma organização criminosa que atua de forma estruturalmente ordenada, com clara divisão de tarefas, para aplicação do que chamam de “engodo espiritual”, com o único objetivo de obter vantagem econômica, mediante as práticas de extorsões e estelionatos. Pelo menos dez pessoas vêm sendo investigadas por esses crimes.

No inquérito da 13ª DP (Ipanema) que apura os golpes praticados contra a empresária, foram indiciados também Tabata Stanesco, Tiago Nicolitch Petrovich, Tiago Marcicano Elias, Rafael Marcicano Elias e Marcelo Marcicano Elias. Os dois primeiros forneceram suas contas para receber os valores repassados pela mulher; os três últimos ficaram responsáveis pelas cobranças. Na última delas, um bilhete em tom ameaçador foi deixado no endereço onde moravam a mãe e o padrasto da moça.

O grupo seria ligado também a Diana Rosa Aparecida Stanesco Vuletic, de 37 anos, presa em flagrante no último dia 1º de abril, na Rua Joana Angélica, em Ipanema.

Indiciada por extorquir uma dona de casa, de 24 anos, ela a teria atraído, após uma breve conversa, com a promessa de uma consulta gratuita em seu escritório, em um edifício na Avenida Nossa Senhora de Copacabana, no bairro vizinho.

Durante o atendimento, porém, foram cobrados R$ 4.300 com o pretexto da realização de uma “cirurgia espiritual” para desfazer o “ritual macabro” que teria sido praticado contra ela.

Na delegacia, a vítima contou ter sido exigido que fosse realizado um “trabalho” para quebrar a “maldição”, sendo necessária a compra de ovos brancos, panos e velas, o que foi feito em um supermercado próximo. De volta à sala de Diana, a mulher teve que passar por um suposto rito em que a criminosa teria identificado um “demônio” em seu corpo e, por isso, cobrou que fossem feitas transferências bancárias.

No dia seguinte ao encontro, Diana novamente voltou a insistir pelo pagamento, dizendo que a vítima seria hospitalizada em seis meses caso não o fizesse e recomendando que não comesse carne vermelha e pimenta e nem ingerisse bebida alcoólica. Em um vídeo enviado por rede social, ela mostrava uma menina vomitando sangue por estar com “carga espiritual” e ameaçava a mulher que o mesmo iria acontecer a ela.

“Os inquéritos mostram que esses criminosos, com promessas de reatar relacionamentos, oferecer promoções em empregos e até desfazer maldições espirituais, exigem dinheiro e chegam a ameaçar as vítimas. Realmente impressiona a frieza como as ludibriam para alcançar vantagens econômicas, demonstrando ganância e explorando crenças religiosas”, diz o delegado Felipe Santoro, titular da 13ª DP.

“Nossa orientação é no sentido de que todos fiquem atentos a essas abordagens e evitem se deslocar para endereços de desconhecidos, procurando referências seguras e não se deixando levar por postagens em redes sociais”, alerta o delegado.

No Registro de Vida Pregressa de Diana, há 20 anotações por diversos crimes, entre eles, outros casos de estelionato, extorsão, ameaça, falsidade ideológica, lesão corporal, injúria por preconceito e até maus-tratos, cárcere privado e estupro.

 

Fonte: Mais Goiás